Morituri te salutant.

by

Há um certo sentimento de pertença que governa o nosso apoio a um clube mas isso traz consigo um lado negativo que é o de rapidamente transformar qualquer discussão futebolística num nós contra eles perigoso. Foi sempre assim. Na tasca ou no recreio, sempre foi assim. E é assim no futebol ou na política.

Coisas como o "meu coxo é melhor que o vosso" ou "nós somos tão bons que até podemos jogar com o Cepo contra vocês" são bocas usuais na preparação de um jogo qualquer. Mas lá no tasco é sempre especial quando se prepara um Dérbi ou um Clássico. Mas o dia de jogo, é diferente. Assim que saem os onzes titulares a descrença vem ao de cima. "Ah, mas aquele isto, e o outro coiso". Mas a descrença vai-se ali por breves instantes após o apito inicial.

Durante o jogo é quando o sentimento tribal assume o seu auge. Quer-se mesmo é que os nossos sejam e joguem melhor. Queremos ter a bola, acampar no meio campo adversário, fintas em cima dos melhores defesas deles se possível. Meter-lhes cabritos, cuecas e sentar os gajos. Fazer golos do meio campo, rabonas e trivelas. Vale meter-lhes todo o lote técnico em cima. Não basta ganhar, são precisos pontos de mérito por valia técnica.

Em tempos recentes no entanto, temos visto o foco a mudar. As picardias de "a minha picareta é mais romba que a tua" tem dado lugar à discussão sobre "o meu projectista pagou menos por fora do que o teu". E se não ajudou a forma como a Sociedade encarou o processo Apito Dourado, há um outro factor pior. Nada terá tornado um jogo de futebol num autêntico Circo Romano mais do que o momento em que os programas onde se devia falar das fintas, da táctica, dos golos e das defesas se tornaram conversas de tasca em frente a câmaras. Já aqui foi falada a parca qualidade, ou pseudo-qualidade, do jornalismo desportivo em Portugal. Não vou portanto falar de como com tanta gente capacitada, e digo pessoas que percebem mesmo e discordam umas das outras (quem queira fazer um debate sumarento, veja os beefs que por aí vão), se aposte em gente sem formação, sem conhecimento e que fogem de falar do jogo mais depressa do que o Sálvio se enfia num cacho de três adversários.

Não é difícil de compreender que não exigirá espectáculo quem não sabe o que espectáculo é. Lembrar o Domingo Desportivo da RTP é lembrar uma noite em que se reviam os jogos das Primeira e Segunda Divisões, depois das Ligas Espanhola, Italiana, Inglesa, jogos mais importantes da Liga Alemã e se houvesse tempo metiam-se uns jogos Franceses e Holandeses para encher chouriços. Não era pouco. E nem eram precisas análises, bastava ver os golos. E as jogadas. E não repetir em cinquenta ângulos diferentes lances polémicos. Normalmente um ou dois davam para perceber que o Baía defendeu mesmo fora da área e que não era fora de jogo. Mas nem todos os lances são assim tão decisivos, nem descarados. E, se em caso de dúvida no fora de jogo, se dá(va ?) vantagem ao avançado, para quê repetir? E a malta ia no outro dia para as escolas, ou para os jogos entre colegas de trabalho, a querer imitar o nó do Caminero, as defesas do Buffon, os livres do Roberto Carlos, as fintas do Romário ou outras coisas que tais. E a conversa do árbitro ficava para as bocas.

Sai caro hoje fazer isso, com os direitos ao preço que estão? Se calhar sai. O que não sai caro é convidar o equivalente de três bêbados da tasca, ter o cuidado de não escolher bêbados que no seu estado sóbrio consigam assinar o nome, metê-los numa sala e filmar.  Num caso até se junta aquele gajo que sabe ler as gordas porque teve um tio que lhe publicou uns textos no jornal da aldeia, mas que acrescenta bola. Se calhar até retira! Isto porque não interessa aos responsáveis pelo produto futebol promoverem esse produto, para o poderem vender mais caro. Há uma certa ideia paroquiana que nos impede de perceber que o produto futebol é global e focamo-nos em quezílias de família que só esburacam a casa que estamos a tentar vender, sem pensar no efeito desses buracos no preço final.

Quem alinha nisto, e é demasiado fácil deixar-mo-nos levar pelo tribalismo a que se apela, baixa intrinsecamente os seus níveis de exigência. E é logo levado pela sua paixão a defender a sua tribo e a ver conspirações em tudo e a santificar os seus demónios.

Quando Sérgio Conceição no início da época remeteu o espectáculo para o Coliseu ele acabou por resumir o que o mais cego dos adeptos defende. Muitos dos que defenderam Rui Vitória até à última, há um ano exigiam calma porque era ele quem nos tinha dado o tetra. A ideia de que os resultados justificam os meios está a remeter o futebol português a um papel menos do que marginal. E daí a necessidade de se defender o treinador Português só porque é Português e portanto dos melhores do mundo. As performances Europeias deixam a nu a relevância do futebol Português, e nenhum clube se apresentou inicialmente sem treinadores "do melhor" do Mundo. Mas a verdade é que há hoje na Primeira Liga poucos jogadores que pudessem competir com qualquer um dos titulares de equipas portuguesas que nos últimos dez anos tenham ido a uma final da Liga Europa, Braga incluído! 

Enquanto não virmos a luta pela verdade sem óculos com lentes coloridas; enquanto não exigirmos qualidade nas equipas; enquanto não soubermos torcer por uma forma de jogar como forma de chegar aos resultados, não conseguiremos exigir uma lei que torne seguro famílias irem à bola, que puna a corrupção, que nos dê bilhetes acessíveis, clubes pujantes, não teremos direito a ver futebol na televisão.

Enquanto não quisermos que a equipa jogue bem, estaremos sempre sujeitos a pontapés do Herrera, que tanto vão para canto, como ao ângulo e que decidem maus jogos e definem campeões ou não. Enquanto não quisermos jogar bem porque isso é que traz resultados sustentados, estaremos sempre sujeitos a golpes do destino. Golpes esse que fazem de um duelo entre dois clubes que lutam para não descer da Bundesliga, um jogo melhor e mais atraente do que um Clássico português.